sábado, 19 de março de 2011

Feliz dia, Pai!

Publicado por Desnorteada às 10:17 da tarde
Escrevo porque sei que não me lês. Não és propriamente um homem de afectos e nem sei como reagirias se te entregasse o que aqui me apetece deixar. Ao longo da minha vida, foste o meu porto de abrigo, aquele a quem recorria para resolver todos os meus problemas, todas as minhas dúvidas, todos os meus desejos. Tinhas [tens] sempre as respostas certas. Desde cedo que me ensinaste que a vida não é para ser vivida imprudentemente e que tudo que se quer tem de ser conquistado com muito esforço e muita dedicação. Fizeste-me crescer depressa demais, mas sei que foi isso que me tornou a mulher que sou hoje. Devo-te os valores, o carácter e a personalidade vincada que tanto me caracteriza... a minha força e a minha coragem. Devo-te inclusive o meu mau feito!
Sabes Pai, de todas a vezes, que deixámos de falar, que virámos as costas um ao outro ou que entrámos em total desacordo, [e foram muitas!], eu percebi que não dizias nada por acaso… Continuas a tentar aceitar que cresci, que deixei de ser a tua menina, que me tornei uma mulher independente e capaz de resolver tudo sozinha. Não deve ser fácil e talvez por isso, aceito que os teus mimos sejam um olhar pleno de orgulho e um sorriso aberto quando partilho contigo as minhas vitórias... é esse o teu jeito! 
Gostava que visses o Dia do Pai como um dia feliz, mas desde há muito tempo que não o conseguimos ver, não é? Acho que nunca vou esquecer os teus olhos tristes, naquele dia 19 de Março… esse dia que nos mudou a vida para sempre. Nunca mais houve presentes em casa e desde esse dia que dizes: «isto é só mais um dia, porque dia do pai são todos os dias». Vou-te contar um segredo, gosto que penses assim, porque sei que vais estar lá sempre para mim, [mesmo quando te perdes e me pedes ajuda], mas gostava também que este dia existisse para nós como existe para todos os outros. Já merecias comemorar o dia do Pai!
Há muita coisa que não gosto em ti. Há muita coisa que reprovo, que receio e que, por vezes, evito. Por outro lado, tens muitas coisas que aprecio. Gosto quando estamos sentados à mesa em família; gosto dos momentos contigo, com a mãe e com o mano; gosto quando se ouve na casa a tua gargalhada; gosto quando dizes: «pronto, tu resolves!»; gosto de ver a brincar com o nosso cão; gosto quando abraças a tua neta; gosto quando me elogias os cozinhados; gosto quando gabas as minhas sobremesas; gosto de me lembrar dos passeios em trabalho onde te acompanhava; gosto quando partilhamos histórias, gosto quando aplaudes o meu trabalho; gosto que me reconheçam como tua filha só pela semelhança dos traços físicos; gosto de ir contigo ao Dragão e estarmos durante 90 minutos só os dois; gosto de gritar golo bem alto ao teu lado e de cantar o hino do FC Porto a duas vozes; gosto de fazer a análise dos jogos e de parodiar o «Benfas» contigo; gosto de te ver enrolar o teu cabelo; gosto de te ver à lareira; gosto do teu espírito no Natal; gosto de saber que confias em mim a 100% e gosto, principalmente, de saber que se pudesses me davas tudo o que tens e o que não tens para eu ser feliz.
Os dias não têm sido fáceis e o futuro não se prevê melhor, mas soubeste até aqui mostrar-me que se vive um dia de cada de vez e que, juntos, podemos superar tudo. Não podemos olhar para o passado e eu acredito que um dia não vamos pensar neste dia como pensámos há já 16 anos. Vamos superar tudo, Pai. Prometo! Prometo-te que estou aqui [apesar de precisar desesperadamente que tomem conta de mim]...  Prometo-te: vai ficar tudo bem. 

7 comentários:

Anónimo disse...

Admiro-te muito. És uma mulher incrível. Beijo

Maria Teresa disse...

Seja o que for, o teu pai deve ter muito orgulho em ti. Lindo texto... deverias mostrar-lhe. Beijinho

Desnorteada on 10:58 da manhã disse...

Maria Teresa, obrigada! Talvez um dia eu ganhe coragem para isso... :) Beijinhos

Eye on 5:36 da tarde disse...

O teu pai sabe a filha que tem... só não sabe é demonstrá-lo... :**. Mas tu sim, podias mostrar-lhe as tuas palavras. Muitas vezes cabe-nos a nós, filhos, lembrar o que é a palavra amor. Talvez, a partir daí, os problemas se tornem mais leves... ou mais fáceis de suportar.

Desnorteada on 12:23 da tarde disse...

Eye: neste caso, como em quase todos da minha vida, o melhor mesmo é guardar isto tudo para mim... ;) Obrigada pelas tuas palavras. Beijo

Karen on 12:01 da manhã disse...

Olá mais uma vez...
Gosto muito de vir de vez em quando ao teu cantinho.
O que escreves sobre o teu pai é sempre muito bonito... e comovente.
Concordo com o que já foi dito, devias ganhar coragem para lhe dizer todas essas coisas, mas não é fácil né?
Um beijinho

Desnorteada on 9:10 da tarde disse...

Karen, não é nada fácil... talvez um dia... ;)

 

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