É verdade. Pela primeira vez, em muitos meses, estou feliz
sem ti. É como se te tivesse arrumado para bem longe, no meu coração [já uma
espécie de mala com a alça toda fodida por carregar muito peso das palavras não
ditas, das palavras que disseram sem sentido, das palavras que nunca se hão-de
dizer]. Peguei nos silêncios consentidos, nas histórias partilhadas, nos livros
que demos a conhecer um ao outro, nas músicas que fizeram a nossa história, nos
sorrisos e gargalhadas e arrumei-os todos num lugar só meu. Já não tens chave –
apenas entras se eu deixar. Se tenho pena?! Não, não tenho. Já era tempo de
acordar para a mim, de me pôr na agenda [como me disseram ontem] e de seguir
caminho. O maior segredo está guardado connosco, no nosso corpo, na nossa alma,
bem dentro de nós, num lugar onde um(a) qualquer nunca há-de chegar. Sim,
chutei-te para canto, para bem longe, de mim e de nós, para que também eu
pudesse ficar longe. Não foi fácil ver-te afastar, como um pacote no mar a
boiar e a ir com a maré. Sentei-me, como espectadora, a ver-te ir, a deixar-te
ir, a não querer-te a rondar nem por perto. E sabes, nem olhei para trás... e
soube bem. Estou acordada, estou viva, estou quase, quase de volta.