Porto Sentido

“Amo a cidade do Porto. (...) Ao contrário de outras pessoas, não consigo, nem quero justificar porque gosto da minha cidade. Está cá dentro. No meu coração. Mas sei que é um sentimento partilhado por milhares de anónimos. Os invejosos chamam-lhe bairrismo. É um adjectivo. Apenas isso. Não vale a pena perder tempo a explicar o que se sente. E aí está a grandeza da nossa relação com esta cidade. Mas, só o sentimento não chega. Temos de gritá-lo. Bem alto!(...)
Os sucessivos governos (e a autarquia, claro!) até podem ter feito algumas (poucas) coisas positivas (metro, Serralves, Casa da Música, requalificação urbana, modernização da Universidade de Porto), mas os resultados oficiais estão à vista: desemprego, perda de influência, falta de oportunidades, perda de competitividade, perda de poder de compra. Estas tristes realidades fazem do Porto uma excelente cidade para criar nossos filhos e morrer tranquilamente. No entretanto, existe Lisboa. Se a crise existe, ela está no Porto. E é esta a estatística. Ou seja, oficial. Há dois anos tínhamos o Mourinho para nos distrair e para nos dar algum orgulho perdido. Agora, nem isso! Não temos desafios, não sabemos bem o que queremos. Estamos quase adormecidos. Sem esperança, sem projectos. Revoltamo-nos todos os dias nos cafés, nos restaurante e nas ruas, mas recolhemos em silêncio. Estamos à espera do nosso D. Sebastião.(...)
Não temos grandes investimentos previstos. Não se criam centros de competência, nem organismo públicos na região. Os que existem ou perdem influência ou são transferidos para Lisboa. Até a nossa carismática pronúncia parece estar a desaparecer. Sempre ridicularizada por quem fala com “bués” e “muita” ou “ganda” disto ou daquilo. Até nas novelas, os nosso habitantes falam com o sotaque da capital!? Querem-nos transformar numa “delegação” de Lisboa.(...)
Temos de, no dia-a-dia, mostrar a nossa indignação e tomar algumas atitudes. Nem que seja escrever para os jornais. Ou façam o seguinte: em todos os domínios de consumo ou lazer, escolham os produtos ou empresas da vossa região. Assim, o PIB fica cá. Acreditem que um dia acaba por doer. E pode ser que passem a investir alguma coisa aqui. Ou, pelo menos, lembrarem-se que existem outras cidades. Nem que seja uma árvore de Natal (essa instituição bancária não tem sede no Porto?) na Avenida do Aliados ou o Porto/Dakar. Sei que pode parecer ridículo, mas mais ridículo é cruzar os braços. “Ousando, erramos às vezes. Não ousando, erramos sempre”.”
Nuno Ortigão in Jornal de Notícias, segunda-feira, 30 de Janeiro de 2006)
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